Inscrições Rupestres em Florianópolis - Natureza e história para crianças.

A história de Florianópolis é muito rica, muito antes da chegada dos europeus, a ilha já havia sido habitada por pelo menos três grandes grupos, o homem do sambaqui, com sítios arqueológicos que remontam há 5.000 anos atrás, os Itararés e os Carijós, que viveram na ilha há aproximadamente 1.000 anos atrás.

Durante sua vida na Ilha da Magia, os primeiros habitantes deixaram espalhadas diversas inscrições, as quais os historiadores não têm consenso quanto a origem, se são do homem do sambaqui ou dos carijós, ou ainda de ambos.

Estas inscrições estão espalhadas pelos costões da ilha, em diversos pontos, muitos dos quais o acesso se dá exclusivamente por trilhas, estando portanto, em locais de difícil acesso à população.

Segundo o Padre Rohr, um dos pioneiros na arqueologia da ilha, as inscrições rupestres estão localizadas em costões de difícil acesso e em alguns casos, em locais de grande altura, concluindo que tais representações não podiam ser mero passatempo dos autores, representando dias de trabalho em posições incomodas, significando, portanto, algo de muita importância.

A grande dúvida que os admiradores das artes rupestres tem, é sobre o significado das inscrições encontradas. Como não é possível consultar as fontes, todas as ideias não passam de especulações. A ideia do lúdico, atrai muitas pessoas, e buscar imaginar o que os antigos moradores da ilha tentavam gravar nas pedras é algo muito atrativo.

A existência de uma terra sem males onde o Sol nasce é uma das bases da religião guarani carijó, desta forma, estando localizada à leste, a ilha de Santa Catarina e as ilhas vizinhas, como a do Campeche, podem ter alguma ligação sagrada para aquele povo.

Outro fator importante a se lembrar é que a região da Ilha de Santa Catarina é uma área com muitos recursos marinhos como ostras, camarões e peixes. Se atualmente é assim, é possível imaginar a gigantesca fonte de alimento que a ilha representava para os primeiros moradores desse paraíso.

Não sabemos se esses fatores influenciaram ou motivaram os desenhos gravados nas rochas, mas alguns fatos nos dão pistas neste sentido. Primeiro que todos os desenhos estão na face leste da Ilha de Santa Catarina ou nas ilhas menores próximas. Desconhece-se qualquer inscrição nas baías, à oeste.

Outro fato é que muitas inscrições representam linhas que formam redes, algumas com pontos em seu interior. Seriam essas representações da pesca? Não sabemos, mas especulamos.

Segundo pesquisa realizada no Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos (IPHAN, 2020), existem 15 sítios arqueológicos que contam com arte rupestre na capital do estado. Já segundo AGUIAR (2002) são ao total 26 sítios que contam com estas inscrições. Tivemos a oportunidade de conhecer algumas dessas inscrições.


Praia Mole.

No costão mais ao sul, sentido à praia do Gravatá, logo no início, pode-se ver no alto duas inscrições que estão apagando. Uma delas com linhas onduladas e outra com diversos triângulos.


Praia da Galheta

Acessada somente por trilha, seja através da Barra da Lagoa, Fortaleza da Barra ou da Praia Mole. Vimos apenas uma inscrição, quase apagada, localizada num bloco de pedra no costão ao norte. Não é fácil encontrá-la, está próxima ao mar.


Praia do Santinho

Nesta praia é possível encontrar inscrições rupestres nos dois costões. No costão sul as inscrições estão localizadas próximas ao hotel Costão do Santinho e estão sob um estrutura de madeira e cordas feitas para protegê-las da chuva.

Já no costão norte, há diversas inscrições, logo no começo, no chão, há uma inscrição que se você não prestar atenção nem vai percebê-la. É um lindo desenho em forma de ampulheta. Seguindo pelo costão é possível ver outros desenhos maravilhosos, com círculos, redes, e outras formas.

Você sabe porque a praia recebeu esse nome????

Imagem obtida no livro "A arte rupestre no município de Florianópolis" de Keler Lucas
Keler Lucas, s/d.

Neste costão ficava uma inscrição em formato humanoide com um círculo sobre a cabeça, parecendo um santo, que deu nome à praia. No entanto, o padre Rohr tentando retirar a inscrição para levá-la a um museu acabou destruindo-a.


Ilha do Campeche

O verdadeiro paraíso em Florianópolis, não só por causa da sua praia de águas cristalinas e areia branquinha, mas pela imensidade de inscrições rupestres. Nesta ilha vimos diversas delas, incluindo as famosas máscaras.

Existem muito mais inscrições em Florianópolis, queremos conhecer todas elas, mas muitas estão tão apagadas que não conseguimos encontrar e outras estão em locais de difícil acesso, precisando de um preparativo mais cuidadoso, talvez com equipamentos de rapel.

Os sítios arqueológicos de Florianópolis podem ser encontrados numa página bem legal, inclusive com um mapa com todas elas.

Sabe-se que muitas destas inscrições estão sumindo, em decorrência das condições climáticas e do intemperismo, portanto, salvaguardar esse patrimônio é fundamental. Desta forma, é fundamental fortalecer na população a atração pela antiga arte catarinense, promovendo sua interiorização e consequentemente sua preservação.

Segundo a Lei 3924, de 26 de julho de 1961, as inscrições rupestres ou locais como sulcos de polimentos de utensílios e outros vestígios de atividade de paleoameríndios são consideradas monumentos arqueológicos. A mesma lei, impõe que qualquer ato que importe na destruição ou mutilação dos monumentos, será considerado crime contra o Patrimônio Nacional e, como tal, punível de acordo com o disposto nas leis penais.

Como afirma o estudioso das artes rupestres, o professor Rodrigo Luiz Simas de Aguiar (2002): “Com a constante destruição dos nossos sítios arqueológicos, o incentivo às pesquisas e à produção de material de divulgação torna-se imperativo. Somente pela educação cultural é que se pode atingir todas as escalas da sociedade, preparando as gerações futuras para melhor administrar nosso patrimônio e assim evitar que nosso passado, parte da nossa identidade, se perca para sempre”.

Acreditamos, assim como a pesquisadora Fabiana Comerlato (2005), que a visitação por turistas aos sítios de representação rupestre favorece a divulgação deste importante patrimônio arqueológico. Somente nos importamos e protegemos aquilo que conhecemos.


AGUIAR, Rodrigo Luiz Simas de. EL ARTE RUPESTRE COMO LEGADO PREHISTÓRICO EN LA ISLA DE SANTA CATARINA, BRASIL. Zephyrvs. V. 56, 2003.


COMERLATO, Fabiana. AS REPRESENTAÇÕES RUPESTRES DO ESTADO DE SANTA CATARINA, BRASIL. Revista Ohun. Ano 2, nº 2, 2005.


S. L. L. Filho; S. A. Martinelli; C. Kestering. Records Rock Art (Engravings) in the Santa Catarina Coast: a literature review on studies in this region. Scientia Plena V. 8, N. 3, 2012.


AGUIAR, Rodrigo Luiz Simas de. Catálogo da Arte Rupestre de Santa Catarina. Disponível em: www.scribd.com/rodrigo_simas_aguiar, 2012.


COMERLATO, Fabiana. As representações rupestres do litoral de Santa Catarina. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Programa de Pós-Graduação em História. Ilha de Santa Catarina, 2005.


LUCAS KELER. A arte rupestre no município de Florianópolis. Rupestre: Florianópolis, s/d.


2 visualizações0 comentário