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Calor e Trilha: resgastes de trilheiros em Santa Catarina

Nos últimos dias temos visto diversas notícias de resgate de trilheiros em Santa Catarina, isso nos acende alertas sobre a negligência a questões importantes que precisam ser observadas durante as aventuras. Especialmente em épocas quentes, como é o nosso verão.

Sabemos que Santa Catarina tem cenários fantásticos e muitos deles somente são acessados por trilha. Caminhadas por locais em meio à Mata Atlântica passando por florestas densas, dunas ou costões, locais que requerem cuidados especiais para que os passeios não se tornem estatísticas do Corpo de Bombeiros.




O Cambirela foi um dos locais onde ocorreram dois resgates em janeiro de 2023. Trata-se de uma montanha com mais de 1000 metros de altura que são percorridos em 4 quilômetros. Portanto, é uma subida muito íngreme que demanda muito esforço físico. Além disso, a descida também é muito desgastante porque requer muito uso das mãos. Enfim, definitivamente não é uma trilha para ser realizada por pessoas sem preparo físico. Mesmo quem estiver com o preparo físico em dia, vai sentir o desgaste nessa época do ano.




As temperaturas médias em Palhoça, município onde está o Cambirela, no verão ficam entre 21ºC (mínima) e 30ºC. Já a umidade do ar varia entre 80% e 83%. Estas condições são extremamente desgastantes para o corpo.

Para entender porque sofremos mais desgaste no calor, vamos conhecer os quatro sistemas de controle de temperatura que nosso corpo tem:

  1. Evaporação: Pode ocorrer através do suor e da respiração. Trata-se do principal sistema do corpo humano para baixar a temperatura.

  2. Radiação: dissipação de calor através de ondas eletromagnéticas (como sentimos quando estamos próximos a uma lareira);

  3. Convecção: Troca de calor com o ambiente (ar, por exemplo). É extremamente influenciado pela exposição ao ar.

  4. Condução: Troca de calor com outro objeto.

Quando estamos em condições climáticas como a do Cambirela, ou seja, em ambientes com altas temperaturas e alta umidade, nosso corpo tem grande dificuldade de colocar em funcionamento estes sistemas. A radiação, convecção e condução ficam prejudicadas porque a temperatura externa está muito próxima da temperatura do corpo que é de aproximadamente 36ºC. Já a evaporação fica comprometida porque a umidade do ar está muito alta, dificultando esse processo.


Desta forma, o sistema pode entrar em colapso se não tiver os cuidados necessários. O sangue é bombeado para a pele (por isso ficamos vermelhos), acarretando em carência de sangue nos órgãos, inclusive no cérebro, ocasionando dor de cabeça e fadiga. A falta de hidratação pode prejudicar essa situação através da diminuição do fluxo sanguíneo. A temperatura interna do corpo começa a aumentar e o corpo colapsa. Podemos comparar com um carro que ferveu o motor. Continuar a atividade nestas condições pode causar fadiga, câimbras, hipertermia e até acidentes vasculares como o AVC e a morte.


Cada indivíduo é único, mas algumas questões devem ser levadas em consideração sobre a realização de trilhas no calor. Pessoas que já tem antecedentes de insolação ou fadiga causada pelo calor são muito mais suscetíveis a passarem por isso novamente. Fatores como idade (criança e idosos), obesidade, uso de medicamentos (diuréticos, laxantes, alguns antidepressivos, anti-histamínicos entre outros), diabetes não controlada, hipertensão, falta de sono e alimentação desequilibrada são fatores que podem contribuir para a ocorrência de doenças causadas pelo calor.

Justamente por estas condições, é que recomenda-se que a trilha do Cambirela seja feita nos meses de maio a outubro, evitando o calor e umidades mais altas e também evitando as variações climáticas repentinas comuns no verão. O cume do Cambirela é uma região descampada, além de não possuir locais sombreados para proteção contra a incidência solar, no verão há grande probabilidade de tempestades naquela região, e estar no cume nesta situação é algo extremamente perigoso.

Outros resgates se dão porque as pessoas erram o caminho e acabam se perdendo. Como aconteceu recentemente no Pico da Teta, em Balneário Camboriú. Muitas trilhas que levam a pontos com visuais maravilhosos convidam pessoas sem experiência em busca de fotos para redes sociais. Todos podem acessar estes locais, mas sempre é necessário um mínimo de preparo para que situações como estas não ocorram.


Então, como prevenir estas situações???

Primeiramente, estude a trilha que deseja fazer, normalmente existem blogs ou posts que trazem de forma detalhada as informações das trilhas, como equipamentos necessários, duração da atividade, roupas e calçados adequados. Temos aqui no blog um post com dicas para iniciantes. Conhecer estas informações é fundamental para saber sua aptidão para aquela atividade.

  • Programe-se para realizar a atividade com mais calma. Realize a atividade num ritmo mais tranquilo e preveja a realização de mais paradas.

  • Estando pronto e escolhida a trilha, pense na previsão do tempo. Ser surpreendido por uma tempestade ou excesso de calor podem tornar o passeio em um verdadeiro perrengue. Nós usamos dois aplicativos muito bons, o Windy e o YR.

  • Prepare uma mochila com água e comida suficientes para o percurso, normalmente recomendamos 1,5 litro de água por pessoa, mas em dias quentes esta quantidade pode ser muito maior. Em algumas trilhas, como a do Cambirela, só existem fontes de água no meio do caminho, portanto, ficar no cume sem água pode ser um grande problema.

  • Utilize roupas leves e transpiráveis, como vimos a umidade elevada pode causar dificuldades na troca de calor com o ambiente, então utilizar roupas leves e que permitam a evaporação do suor são fundamentais para o conforto térmico. Use boné ou chapéu e não esqueça de protetor solar. Retocando a cada duas horas para garantir sua eficiência.

  • Utilize um aplicativo com localizador para navegar durante as trilhas. Eles são ferramentas fundamentais para não se perder. Utilizamos normalmente o Wikiloc, mas existem outros muito bons. Na região de Floripa pode ser utilizado o Let’s Hike, que traz informações legais sobre o trajeto com história dos locais.

  • Sempre avise alguém qual trilha você vai fazer e que hora pretende voltar. Nós normalmente combinamos que se não ligarmos até tal hora, a pessoa deve buscar ajuda. E obviamente, ligamos para a pessoa assim que terminamos a trilha. Outra sugestão é ter sempre na mochila um apito.

E ainda assim, caso prefira uma experiência mais segura e tranquila, conte conosco para programar sua aventura, fazemos diversos roteiros na região de Floripa. Buscamos trazer tranquilidade com todos os cuidados com a segurança de todos os participantes e aliamos a isso muita história e cultura manezinha.




Mas e se ainda assim acontecer um acidente, o que fazer?

Em caso de fadiga e insolação, a primeira atitude é parar, de preferência em um local com sombra. Manter-se sentado, de preferência. Hidratar-se e se tiver bastante água, pode-se banhar a pessoa. Assim que a pessoa estiver melhor, realizar a evacuação da trilha para o local mais próximo. Em casos extremos ligue para o Corpo de Bombeiros (193)


Em casos de ser pego em uma tempestade com raios, mantenha-se agachado, com os pés juntos, em posição fetal. Afaste-se de objetos metálicos como bastões de caminhada e paus de selfie. Tape os ouvidos com as mãos. Fique longe de árvores, cursos d'água. Se estiverem em grupo, mantenham-se separados. Se estiver no topo da montanha, descer durante a tempestade pode ser muito pior, mas desça assim que possível, cuidando para não sofrer um acidente.


E caso fique perdido, pare e ligue para o Corpo de Bombeiro através do 193. Se estiver utilizando algum aplicativo de localização, passe sua localização para o resgate mais rápido. Caso não tenha sinal de celular, fique no local onde está, veja o que tem de suprimentos e tente organizar um plano de uso destes recursos. Mantenha a calma. Pense em fazer um abrigo e proteger-se do frio e da umidade.


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