É perigoso fazer trilhas?

Como construímos nosso padrão de comportamento e política de segurança nas trilhas.


Sempre fomos apaixonados pela natureza e adoramos fazer trilhas. Assim que viemos morar em Floripa, essa cidade maravilhosa com diversas opções de percursos para todos os gostos, decidimos nos aventurar pelos caminhos e trilhas da ilha e oferecer esse lazer ativo e ao ar livre para nossos filhos.

No início, com muita vontade mas pouca experiência e conhecimento, passamos por alguns perrengues que foram acendendo alertas em nossas cabeças sobre os diversos perigos que estávamos nos expondo, tanto os adultos como as crianças.

Em uma oportunidade, ficamos perdidos na Trilha do Engenho, no Morro dos Ingleses, norte da Ilha. Foi por um período curto, logo encontramos o caminho, mas foi um momento bem tenso, não é uma sensação muito boa. Em outra oportunidade fomos surpreendidos por uma enorme (e linda) jararacuçu no meio do caminho, enquanto caminhávamos pelo costão norte da Praia do Rosa. Só a vimos quando já estávamos ao seu lado e aquele susto está bem claro na nossa mente, mesmo depois de tanto tempo. Nosso pensamento foi: “opa!! Não podemos correr estes riscos”.

Foi a partir dos nossos sustos que percebemos que era importante começar a estudar, afinal estávamos na trilha com muita frequência, portanto aumentava muito nossa exposição ao risco.

A primeira coisa que fomos descobrir é se realmente acontecem acidentes nas trilhas e nos deparamos com diversas notícias de acidentes envolvendo adultos e crianças, inclusive na região de Florianópolis. Hoje em dia, uma busca rápida no Google nos mostra várias situações assim.

Descobrimos também, através de acesso ao banco de dados do Ciatox (unidade pública de referência na área de toxicologia em SC, incluindo acidentes com animais peçonhentos), que ocorrem rotineiramente acidentes com animais peçonhentos como aranhas, serpentes e lagartas. Esses acidentes envolvem crianças e adultos. Por exemplo, em 2021 Santa Catarina teve o registro de 39 crianças e 481 adultos envolvidos em acidentes com jararacas. É bastante coisa.

Você pode pensar: “mas então não devemos ir para trilha?”

Não temos dúvida da resposta, claro que devemos!! Os benefícios da convivência em ambientes naturais para as crianças são inúmeros (já abordamos em outro post) e para os adultos também é possível perceber uma lista de benefícios. Mas cientes que existem riscos, é fundamental que se estude alguns detalhes para que a diversão não vire um estresse. Deixamos estas dicas bem detalhadinhas neste outro post. Assim nos sentimos confiantes e acreditávamos que estávamos aptos a fazermos trilhas com nossos filhos.


De trilheiros a guias nas trilhas

No entanto, através das redes sociais, diversas pessoas começaram a nos perguntar como fazer para ir com as famílias para trilhas e muitas nos pediam para nos acompanhar. A ideia pareceu maravilhosa (e é!), mas pesquisando a atividade, descobrimos que para levar grupos de pessoas nas trilhas, mesmo que gratuitamente, existem uma série de leis, decretos e normas que precisam ser respeitadas. Você precisa ser responsável pelo grupo.

Para esse novo passo, vieram mais estudos, desta vez objetivando nos qualificar para levar outras pessoas para a trilha, auxiliá-las a terem um contato com a natureza de forma segura, principalmente as crianças. E assim, do nosso hobby nasceu a Família na Trilha, essa empresa especializada em trilhas com segurança.

Nossa principal missão é incentivar as famílias a manterem uma conexão com a natureza, e para isso, já passamos diversas dicas, compartilhamos nossos momentos e como nos planejamos, como uma forma de estimular essa atividade. Mas se você prefere que estes detalhes sejam geridos e organizados por outras pessoas, lembre que a legislação brasileira traz algumas obrigações para poder levar grupos nas trilhas.

A caminhada na natureza é uma atividade que exige responsabilidade. Inicialmente é preciso ser guia de turismo ou condutor de turismo de aventura, conforme definido nas normas técnicas oficiais. Segundo a ISO 21102, são competências mínimas do condutor/ líder de turismo de aventura: interpretação dos sinais meteorológicos pertinentes, orientação com mapas e bússolas, gerenciamento de grupos, comunicação adequada, procedimentos de emergência e primeiros socorros, entre muitos outros. Todas competências indispensáveis para uma atividade segura.

Além disso, é fundamental possuir um sistema de gestão da segurança. Segundo a ISO 21101, Sistema de Gestão da Segurança é a base para os prestadores de serviço nas atividades de turismo de aventura planejarem, comunicarem e realizarem as atividades de turismo de aventura de maneira tão segura quanto praticável.

Outro detalhe que as normas trazem de forma muito incisiva é a necessidade que todas as informações sejam repassadas aos participantes de forma detalhada, especialmente a existência de riscos. Então, não basta criar um grupo e sair pelas trilhas, é fundamental que todos os perigos sejam mapeados e que o risco de qualquer acidente seja mitigado. E, se ainda assim acontecer algum acidente é fundamental que os guias estejam preparados para essa eventualidade. Mas acima de tudo, os participantes precisam saber que os riscos existem. Não deixar claro é uma omissão grave.

Importante ainda, que o condutor de turismo de aventura deve oferecer um seguro de acidentes pessoais aos participantes.

Há também uma regra quanto ao número máximo de participantes nas trilhas. A norma brasileira define que os grupos de trilheiros não devem ultrapassar 25 pessoas. Este número visa não só a garantia da segurança de todos mas também o menor impacto ao meio ambiente. Em alguns parques este número pode ser ainda menor.

Assim, se você for trilhar com alguém, com algum grupo, fique atento se todas estas questões estão sendo seguidas, e entenda quem é o responsável pela atividade. Como vimos, acidentes acontecem, mas a maioria deles poderia ser prevenida. Contrate profissionais que estejam preocupados com a segurança de todos e não só com a diversão e alguns likes nas redes sociais.

Como frisamos diversas vezes, nosso foco é promover e incentivar a conexão entre as famílias e a natureza, por saber que esse é um caminho inevitável para o desenvolvimento de uma sociedade melhor, mais harmônica e mais consciente da interdependência entre os seres. Com um pouco de planejamento e cuidado, você pode propiciar aos seus filhos os imensos benefícios que a natureza nos oferece. Aproveitar muito e com segurança, é possível!


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